Você fez o teste. Sabe o seu limiar, o seu FTP está atualizado, o plano vem saindo como estava escrito. Aí você olha o relógio e ele diz "Improdutivo". Ou "Sobrecarga". Ou você termina uma hora de rodízio regenerativo e o relógio garante que você passou sessenta minutos em zona 5.
A pergunta é sempre a mesma: será que estou em overtraining?
Quase com certeza, não. O que está errado não é a sua forma física: são os números com os quais o relógio está fazendo as contas.
O relógio está adivinhando
Um Garmin recém-tirado da caixa não sabe nada sobre você. Para conseguir dar feedback desde o primeiro dia, ele usa fórmulas genéricas — a mais famosa é 220 menos a sua idade para estimar a frequência cardíaca máxima — e algoritmos que vão "detectando" os seus limiares sozinhos.
Funciona surpreendentemente bem para quem está começando. Para de funcionar assim que você treina a sério.
Um exemplo concreto. O seu limiar real, medido num teste de campo, está em 170 bpm. O relógio estimou 155. A partir daí, tudo o que ele calcula está deslocado:
- Cada rodízio em ritmo confortável é lido como uma sessão de limiar.
- Cada sessão de limiar é lida como um esforço máximo.
- A sua carga aguda infla semana após semana.
- E como a carga parece altíssima, o relógio conclui a única coisa que pode concluir: você está em overtraining.
O relógio não está quebrado. Está fazendo aritmética impecável com um dado errado.
O conserto: dar os seus números e tirar o volante dele
São duas partes, e quase todo mundo pula a segunda.
Primeiro, carregue as suas zonas reais — medidas num teste, não estimadas. E carregue por esporte: o seu limiar na bike normalmente é mais baixo do que correndo, então um perfil único garante que um dos dois esportes sempre vai ler errado. No Garmin Connect isso fica em Perfil do usuário → Zonas de frequência cardíaca e potência, e vale mudar a base de %FC máx. para %LTHR.
Segundo, e este é o importante: desligue a detecção automática. Se deixar ligada, o relógio vai reestimar os seus limiares por conta própria e sobrescrever os números que você acabou de carregar. Ele não avisa. Simplesmente, algumas semanas depois, você volta ao ponto de partida sem entender por quê.
Não mediu as suas zonas? Esse é o passo zero e não tem atalho. A calculadora de zonas diz qual teste fazer conforme o seu esporte e converte o resultado nas suas zonas de pace, frequência cardíaca e potência. É grátis e não precisa se cadastrar.
Quando você arrumou as zonas e o relógio ainda assim marca zona 5
Se já está tudo carregado direito e uma sessão leve continua aparecendo com a frequência nas alturas, o mais provável é que você esteja vendo travamento de cadência.
O sensor óptico do pulso não mede batidas: mede mudanças no fluxo de sangue iluminando a pele com luz verde. O problema é que correr e pedalar são movimentos rítmicos, e essa vibração regular pode enganar o sensor — em vez de ler a sua frequência, ele engata na sua cadência. Se você dá 170 passos por minuto, o relógio informa 170 bpm.
Se reconoce fácil una vez que sabés qué buscar:
- O número se parece suspeitosamente com a sua cadência.
- Aparece de repente e fica cravado, em vez de subir e descer como sobe e desce uma frequência real.
- O esforço parece um 3 de 10 e o relógio diz 170. Quando a sensação e o dado se contradizem com essa força, quem está errado é o dado.
É mais frequente na bike do que correndo — o pulso flexionado sobre o guidão mais a vibração do caminho são a combinação perfeita para confundir o sensor — e piora no frio, porque cai o fluxo de sangue na pele.
Para treino de tiros e para a bike, uma cinta peitoral resolve o problema por completo. Uma braçadeira com sensor óptico é um bom meio-termo: bem mais confiável que o pulso e bem mais confortável que o peito. Para rodízios leves e contínuos, o pulso dá conta perfeitamente — não precisa comprar nada para isso.
Training Readiness e HRV: o que eles medem de verdade
Os Garmin mais novos mostram um Training Readiness de 0 a 100 e um HRV Status. Quando caem, a reação típica é se assustar. Duas coisas ajudam a lê-los:
Zonas quebradas quebram a pontuação também. O Training Readiness combina sono, HRV e a sua carga recente. Se as suas zonas estavam erradas, o relógio acredita que a sua carga foi enorme, e a pontuação afunda por um motivo que não tem nada a ver com você. Atenção: depois de arrumar as zonas, a pontuação demora algumas semanas para normalizar, porque continua arrastando a carga mal calculada dos dias anteriores.
E HRV baixo não é um alarme, é uma descrição. A variabilidade da frequência cardíaca reflete o estado do seu sistema nervoso autônomo, e uma sessão dura ou um bloco longo a deprimem por 24 a 72 horas. Isso não é problema: é exatamente o que tem que acontecer quando você treina a sério. HRV cair e o Readiness ficar em "recuperando" no meio de um bloco de carga é o normal, não a exceção. O que vale a pena olhar é a tendência ao longo de semanas, não o número desta manhã.
Se você não usa Garmin
Nada disso é exclusivo do Garmin. Polar, Coros, Suunto e Wahoo fazem exatamente o mesmo — estimam as suas zonas para poder dar feedback desde o minuto zero, e vários deles também as reajustam sozinhos com o tempo. Muda onde fica o menu, não o problema:
- Polar Flow: ajustes por perfil de esporte, com zonas de frequência configuráveis por esporte e opção de zonas manuais.
- Coros: os limiares ficam no perfil do atleta no app e podem ser fixados à mão.
- Suunto e Wahoo: zonas por perfil de esporte, igual ao de cima.
A regra é a mesma em todos: carregue os seus números medidos e desative qualquer ajuste automático que possa sobrescrevê-los.
O relógio registra; a leitura é sua
A Garmin faz um hardware extraordinário, e o software dela é pensado para milhões de pessoas que nunca fizeram um teste. Esse é exatamente o ponto: os valores padrão são feitos para alguém que não é você.
Quando o relógio te contradiz — diz sobrecarga enquanto você vem absorvendo o plano sem problemas, ou marca zona 5 numa sessão que foi de conversa — a resposta quase nunca é mudar o treino. É conferir de onde saíram esses números.
Um relógio bem configurado é uma ferramenta excelente. Um mal configurado é um gerador de ansiedade com pulseira.