Calor, humidade e desempenho

Competir no trópico sem perder o dobro do necessário

Treinas onde faz frio e compites onde faz calor. Este guia diz-te quanto te vai custar, o que podes fazer com o tempo que te resta, e o que não vale a pena fazeres.

Esta foto é de Mar del Plata, Ironman Argentina 2022, na corrida. Fui a uma prova à beira-mar à espera de clima fresco e encontrei 35 °C. Tinha planeado uma maratona de 3:30 a 3:45 e cruzei a meta em 4:20.

Isso é entre 16 e 24% acima do plano: mais do que este mesmo guia prevê para uma maratona isolada, e exatamente o que prevê para a corrida de um Ironman, que é o cenário com a margem mais larga de todos. Não me faltou forma. Faltou-me preparação específica para o calor e faltou-me ajustar o objetivo antes de largar.

Escrevi este guia para que não te aconteça o que me aconteceu a mim.

Ver quanto te vai custar a ti
Iván Koch a correr a maratona do Ironman Argentina 2022 em Mar del Plata, com o cabelo encharcado e o rosto em esforço, sob sol direto.
IRONMAN Argentina 2022 · 35 °C · 4h20
Quilómetro da corrida, meio-dia, sombra nenhuma. Atrás, duas pessoas a caminhar à sombra em manga curta: o mesmo dia, outro desporto.

Quanto falta para a tua prova?

Começa por aqui. Cada cartão leva-te ao que consegues mesmo fazer no tempo que te resta.

Se não tens tempo de ler tudo, lê como sair e como te arrefeceres. É grátis, não exige preparação prévia, e é o que mais te vai mudar a prova.

01 — O mecanismo

Porque é que o calor te deixa mais lento?

Há uma só ideia aqui, e se levares apenas esta o guia já valeu:

Numa prova com calor não ficas sem distância. Ficas sem margem térmica.

Num estudo clássico levaram-se ciclistas à exaustão em três condições diferentes: a arrancar frios, normais, ou pré-aquecidos. Os tempos até à exaustão foram muito diferentes. A temperatura interna a que pararam, não.

63 minA arrancar frios (35,9 °C internos)
46 minArranque normal (37,4 °C internos)
28 minPré-aquecidos (38,2 °C internos)

Os três grupos pararam com a mesma temperatura interna: 40,1 °C. Tanto faz como lá chegas. Quando chegas, acabou.

Isso reorganiza tudo o resto. Qualquer coisa que baixe a tua temperatura de arranque, que atrase a subida ou que suba o teto, compra-te minutos. Sair mais devagar, arrefecer antes da largada e aclimatar não são três truques diferentes: são três formas de fazer o mesmo.

Porque tens pulsações mais altas ao mesmo ritmo quando faz calor?

É a pergunta que mais me fazem, e a resposta é mecânica, não é falta de forma.

Quando a tua temperatura sobe, o corpo manda sangue para a pele para largar calor. Esse sangue acumula-se nas veias da pele e não volta ao coração com a mesma eficiência. Menos sangue a voltar significa menos volume por batimento. Para manter o mesmo débito cardíaco, o coração compensa com a única coisa que pode: mais batimentos por minuto.

Chama-se deriva cardiovascular. Não é que estejas pior treinado do que na semana passada. Estás a pagar um imposto de refrigeração.

O que fazer
  • Deixa de ler o pulso alto de um dia quente como perda de forma. O teu pulso vai subir durante a prova mesmo que não aceleres, e isso é normal.
  • Se te aclimatares, esse imposto baixa: entre 4 e 12 pulsações ao mesmo ritmo em atletas treinados, até 17 em gente menos treinada. É a adaptação mais rápida e fiável que existe.
02 — O número

Quanto mais lento vais correr?

Aqui vai o número, e vai com os seus limites, porque a maioria das calculadoras que vais encontrar não tos dá.

A regra: o desempenho cai entre 0,3% e 0,4% por cada grau de WBGT acima do intervalo ótimo, que está entre 7,5 e 15 °C WBGT. Sai de uma análise de 1.258 provas e 7.867 atletas de elite entre 1936 e 2019.

WBGT é uma medida de stress térmico que combina humidade, radiação solar e temperatura do ar. Explico-ta uma só vez, bem, porque vais usá-la em todo o guia.

Como se calcula

WBGT = 0,7 × bolbo húmido + 0,2 × globo negro + 0,1 × temperatura do ar

Lê os pesos. A temperatura do ar — a única coisa que todos olhamos — pesa 10%. A humidade pesa 70%. É por isso que o termómetro te mente na costa.

Penalização estimada de desempenho segundo WBGT e nível
WBGTGraus acima do ótimoAtleta treinadoMeio do pelotão
20 °C+51,5 – 2,0%3 – 6%
24 °C+92,7 – 3,6%5 – 11%
27 °C+123,6 – 4,8%7 – 14%
30 °C+154,5 – 6,0%9 – 18%

Tabela derivada, não medida. As colunas aplicam o coeficiente publicado; a coluna do meio do pelotão multiplica por 2–3 segundo os dados de maratonas grandes, onde o 300.º lugar perdeu 7,9% enquanto o 25.º perdeu 2,6%. Válida da meia maratona para cima. Para 5 e 10 km não existe um equivalente publicado: desconfia de quem te der um número aí.

Um exemplo com números teus

Corres a maratona em 3:30, ou seja 4:58 por quilómetro. Vais a Cozumel, que a meio da manhã está perto de 27 °C WBGT.

3,6 – 4,8%Penalização estimada
+7 a +10 minSobre o teu tempo objetivo
11 – 14 s/kmMais lento por quilómetro

O mesmo cálculo para alguém que corre em 4:30 (6:24/km), na mesma prova: 7 – 14%, ou seja +19 a +38 minutos.

Não é um erro da tabela. Quanto mais lento fores, mais te bate o calor, porque passas mais tempo exposto a acumular calor a um ritmo que não consegues dissipar.

Duas coisas que a tabela não diz

Uma. Aclimatares-te comprime a penalização, não a elimina. Ninguém corre em Cartagena como corre num inverno temperado. O objetivo não é anular o calor: é não perder o dobro do necessário.

Duas. O risco de não terminar sobe mais depressa do que o ritmo. Em seis maratonas grandes analisadas durante dez anos, a taxa de desistência cresce de forma quadrática com a temperatura. O pior caso registado foi Chicago 2007, com 25 °C: 30,7% de desistências.

O que fazer
  • Ajusta o objetivo antes da prova, não ao quilómetro 25.
  • Procura o WBGT do dia, não a temperatura. Se não o conseguires, olha para o ponto de orvalho.
  • Corre os teus próprios números: a calculadora faz esta aritmética com as condições e o objetivo que lhe puseres, e traz carregadas as sete provas da secção 12.
03 — A variável que decide

Porque é que a humidade bate mais do que o calor?

Porque o calor tem uma só saída, e a humidade tapa-a.

Quando a temperatura do ar se aproxima da da tua pele — à volta de 33–35 °C — deixas de conseguir largar calor por convecção e radiação. Resta-te uma só via: evaporar suor. E a evaporação precisa que o ar tenha espaço para receber esse vapor. Se o ar já está carregado, o suor não evapora. Escorre. E o suor que escorre custa-te água e sódio sem te arrefecer nada.

Humidade relativaTempo até à exaustãoTaxa de suor
24%68 min22 mL/min
40%60 min23 mL/min
60%54 min27 mL/min
80%46 min30 mL/min

Oito homens ativos a pedalar até à exaustão à mesma intensidade, com o ar a 30,2 °C constantes nas quatro condições. A capacidade de resistência caiu 32% só por humidade.

Repara na última coluna: suaram 36% mais e arrefeceram menos. É exatamente esse o problema da costa.

O ponto de orvalho é o número que devias olhar

O ponto de orvalho diz-te quanta água há realmente no ar, em graus. É mais útil do que a humidade relativa, porque 80% de humidade a 20 °C e 80% a 30 °C não são de longe a mesma coisa.

12 °C 16 °C 20 °C 24 °C
Menos de 16 °CNão o vais notar
16 – 20 °CComeça a incomodar
20 – 24 °CPesado. Ajusta o ritmo
Mais de 24 °COutro desporto. O teu suor praticamente não evapora

E aqui está o dado que ordena todas as provas deste guia. Ponto de orvalho na largada:

ProvaPonto de orvalhoLeitura
Cartagena, novembro25,0 °CAcima da linha
Barranquilla, junho, 7 h25,0 °CAcima da linha
Cozumel, largada do Ironman21,1 °CDuro, gerível
Miami, maratona de janeiro20,6 °CDuro, gerível
Rio, maratona de junho17,5 °CNão é uma prova de calor

Cartagena e Cozumel parecem-se no termómetro. Estão separadas por quase 4 graus de ponto de orvalho, e essa diferença é a prova inteira.

Que adaptação te serve na humidade, e qual não

Isto quase ninguém diz, e muda a forma como treinas.

Serve: começar a suar mais cedo, temperatura interna mais baixa em repouso e em exercício, mais volume plasmático, menos pulsações ao mesmo ritmo.

Serve muito menos: suar mais. Em humidade alta, litros extra de suor que não evaporam são desidratação e perda de sódio sem benefício térmico.

Se alguém te vender uma preparação para o calor cujo objetivo principal é que sues mais, essa preparação foi pensada para o deserto, não para as Caraíbas.

O que fazer
  • Antes de qualquer prova na costa, olha para o ponto de orvalho previsto, não para a temperatura.
  • Se ultrapassar 24 °C, entra na prova com o objetivo já ajustado e o plano de arrefecimento pronto.
04 — O que muda

O que muda no teu corpo ao aclimatares-te, e em quanto tempo?

Não existe «a aclimatação» como um só acontecimento. Cada sistema tem o seu próprio relógio, e saber qual é qual diz-te o que esperar de um bloco curto.

AdaptaçãoQuanto mudaQuando chega
Pulso a ritmo fixo−4 a −17 bpmDias 4 – 7
Temperatura interna em exercício−0,3 a −0,43 °CDia 5
Volume plasmático+4 a +10%Dias 3 – 5
Perceção do esforço−1 pontoPrimeira semana
Início da sudação (mais cedo)−0,28 °C de limiarDias 8 – 14
Taxa de suor+5% a +33%Dias 8 – 14
Sódio no suor−22 mmol/LDias 8 – 21
Desempenho no calor+7% a +21%Dias 7 – 14

Lê assim: o cardiovascular chega depressa e o sudomotor chega tarde. Um bloco de uma semana dá-te pulso e temperatura. Suar melhor e perder menos sódio precisa de duas ou três.

Dois avisos que mudam decisões:

Se já és rápido, espera menos. O título de −17 pulsações mistura gente pouco treinada, que é a que mais margem tem. Em atletas de resistência a mudança real foi de −4 pulsações. Se esperas o título, vais concluir que o protocolo falhou quando na verdade funcionou.

Aclimatares-te dá-te menos sede. A perceção de sede baixa e o consumo voluntário de líquido cai cerca de 20%. Isso não é um benefício: é um risco, e é a razão pela qual a hidratação em prova se planeia e não se improvisa.

05 — Os protocolos

Como te aclimatas se treinas onde faz frio?

Ordenados por praticidade para alguém com trabalho, não por elegância de laboratório. Os três funcionam. O primeiro é o que não te toca no treino.

Opção 1 — a que eu escolheria

Banho quente depois de treinar

Treinas normal, no teu clima normal. O estímulo térmico acrescenta-se depois, sem tocar numa única sessão.

Dose 40 °C, até 40 min, submerso até ao pescoço, a começar dentro dos 10 min depois de acabar. 6 dias seguidos.
  • Melhoria de 4,9% em 5 km com calor
  • Adaptações ainda presentes 2 semanas depois
  • Funciona igual em atletas treinados e recreativos
  • Precisas de banheira e termómetro. É incómodo, não é perigoso
Opção 2 — menos sessões

Sauna depois de treinar

O protocolo com menor número de sessões de todos os que funcionam. Se o teu ginásio tem sauna, é o mais barato em tempo.

Dose 28 min a ~100 °C, 3 vezes por semana, 9 sessões em 3 semanas. Entrar dentro dos 5 min depois de acabar.
  • Temperatura interna máxima −0,2 °C, pulso máximo −11 bpm
  • Esticá-lo a 7 semanas acrescentou 0,1 °C e mais nada
  • A sauna de infravermelhos não serve para isto: não atinge a temperatura dos estudos
Opção 3 — a mais exigente

Rolo num quarto quente

A versão caseira da câmara climática. É o protocolo com mais evidência por trás, e o que mais tempo te custa.

Dose Quarto acima de 30 °C, sem ventoinha, roupa a mais. 60 a 90 min a intensidade baixa. 5 dias seguidos.
  • Sem ventoinha importa mais do que o número do termóstato
  • Ninguém testou sessões de 30 min em rolo: a dose estudada é 60–90
  • O objetivo é que a temperatura interna suba e fique lá em cima, não chegar a um número na parede

A dose mínima, e a armadilha que esconde

De 5 a 7 exposições de 30 minutos ou mais, em dias seguidos ou quase seguidos. Esse é o piso onde as mudanças de pulso e temperatura interna se tornam mensuráveis de forma fiável. Três fontes independentes coincidem.

A armadilha: esse piso é de fisiologia, não de desempenho. Dois estudos concluíram que a dose curta não chegou para mexer num contrarrelógio. Com 4 dias não aconteceu nada em atletas femininas; com 9 dias o desempenho subiu 8,1% em potência. Outro estudo conseguiu +9% de volume plasmático em 5 dias e uma melhoria não significativa em 20 km.

Traduzido: 5 a 7 sessões como mínimo absoluto, 9 a 14 se o que queres é um tempo melhor. O «com 5 dias chega» que circula por aí é o piso fisiológico, não o de desempenho.

O que não vale a pena

Agasalhares-te a mais na tua sessão normal. Duas semanas a treinar de casaco em clima temperado não produziram nenhuma adaptação, ainda que os atletas tenham sentido mais calor. A versão que funcionou foi um protocolo desenhado especificamente para chegar a uma temperatura interna objetivo: 30 min de corrida e 60 de caminhada com equipamento padronizado. Ou seja, 90 minutos que não são treino. A versão que a maioria vai fazer é justamente a que se demonstrou não servir.

Sauna de infravermelhos e yoga quente. Não existe um único estudo de aclimatação com nenhum dos dois.

Treinar à hora mais quente do dia, se vives num clima frio ou de altitude. Não há dose disponível: a tua hora mais quente não chega.

06 — Durabilidade

Fizeste o bloco há duas semanas. Foi-se tudo?

Não. E a razão pela qual não é a parte mais útil desta secção.

O número que vais ler por todo o lado é que se perde cerca de 2,5% da adaptação por cada dia sem calor. É real, vem de uma meta-análise, e há estudos que a contradizem nas duas direções: um não encontrou nenhuma deterioração da temperatura retal aos 26 dias; outro, em ciclistas de elite, encontrou o desempenho de volta à linha de base às duas semanas.

Mas o número que decide o teu calendário é outro:

8 – 12×Mais rápida é a re-aclimatação do que a perda
2 diasPara recuperar tudo depois de 12 dias sem calor
4 diasDepois de 26 dias sem calor

Construí-lo a primeira vez custa 10 a 14 dias. Recuperá-lo custa 2 a 4. Um bloco que acaba uma ou duas semanas antes de viajares não se desperdiça: transforma-te de principiante em re-aclimatador, e é exatamente isso que faz uma viagem curta funcionar.

Manutenção: 2 sessões por semana sustentam ou melhoram o desempenho; 1 por semana mantém-no; zero deixa-o cair cerca de 11% em oito semanas. Nunca deixes um intervalo de mais de 5 ou 6 dias.

O erro a evitar
  • Acabar o bloco 10 a 14 dias antes, não fazer nada no intervalo, e chegar 48 horas antes da prova. O bloco não se desperdiçou — fez com que recuperá-lo fosse barato — mas a recuperação nunca aconteceu.
07 — O plano

O que fazes com o tempo que te resta?

Inclui a linha honesta: não fazer nada. É o que a maioria escolhe, e merece uma resposta a sério e não uma reprimenda.

FaltaO que é alcançávelO que fazerO que esperar no dia da prova
8+ semanas Tudo, incluindo as adaptações lentas: taxa de suor e sódio. Bloco de 10 a 14 sessões, 3 a 5 semanas antes. Depois 2 sessões semanais de manutenção. Depois 2 a 4 exposições suaves na última semana. O efeito completo. A penalização de calor reduz-se para perto de metade. Continuas mais lento do que em clima fresco.
4 semanas Todo o cardiovascular e quase todo o sudomotor. 10 sessões em 2 semanas a começar agora, a terminar a 2 semanas da prova. Depois manutenção. A melhor relação esforço–benefício de toda a tabela.
2 semanas Adaptação cardiovascular completa, sudomotora parcial. 6 a 10 sessões de banho quente depois do treino. Sem acrescentar intensidade. Terminar 2 a 4 dias antes de viajar. Efeito real mas parcial. Vais notar mais o pulso e o conforto térmico do que o cronómetro.
1 semana Pulso, temperatura interna, volume plasmático, conforto. Não taxa de suor. 5 a 7 dias seguidos, 30 min ou mais de exposição depois de treinar. Só intensidade baixa. Os marcadores mexem-se; o relógio talvez não. É a janela onde as pessoas concluem que «não funcionou» porque mediram o que não era.
3 dias Quase nada de novo. Mas se alguma vez fizeste um bloco, esta é a tua janela de re-indução. Se já te aclimataste antes: 2 ou 3 exposições curtas e suaves. Se nunca o fizeste: não comeces agora. Usa os 3 dias em ritmo, arrefecimento e dormir com ar condicionado. Re-aclimatador: recuperas grande parte. Primeira vez: praticamente a linha de «não fazer nada», mas com melhor tática.
Chegas na véspera Nada fisiológico. Tudo tático. Dormir fresco, não treinar forte. Gelo antes de largar, plano de arrefecimento próprio, e um ritmo objetivo calculado a partir do WBGT. Penalização completa, moderada só por ritmo e arrefecimento. É uma opção válida, desde que a aclimatação tenha acontecido em casa.
Não fazer nada Nada. A penalização completa: 3,6–6,4% se és forte, 8–15% no meio do pelotão. Numa maratona de 4:30 são 20 a 40 minutos. Num Ironman de 12 horas, mais de uma hora. E mais probabilidade de não terminar.

Sobre chegar antes: ninguém estudou até hoje qual é o melhor dia para chegar a uma prova com calor. Nenhum consenso o diz, nenhum ensaio o testou. O mais próximo que existe na literatura são «4 a 5 dias de re-aclimatação à chegada». Se alguém te der um número exato, está a inventá-lo — incluindo eu, se o fizesse.

O que é claro: expõe-te durante o treino, dorme e recupera no fresco. Pôr ar condicionado no quarto não é fazer batota.

08 — O dia da prova

Como sais, e como te arrefeces?

Esta secção é grátis, não exige preparação prévia e é a que mais te vai mudar o resultado se chegaste com três dias.

O ritmo

Três âncoras possíveis, e escolher qual usas é a decisão de ritmo:

O ritmo por quilómetro é a pior âncora. É a única variável que não responde ao stress térmico. Sustentar o ritmo objetivo com 28 °C de WBGT é exatamente a conduta que produz os colapsos.

O pulso é uma âncora conservadora. Sustentar um teto de pulso obriga-te a baixar continuamente, porque a deriva cardiovascular o empurra para cima. Numa prova longa e húmida esse erro vai na direção segura. Em 5 ou 10 km vai deixar-te tempo na estrada.

A perceção do esforço fica no meio, e é o canal por onde operam todas as estratégias de arrefecimento que funcionam.

Vejo duas opções. Da meia maratona para cima, eu usaria teto de pulso no primeiro terço e perceção de esforço depois. Para 10 km ou menos, perceção de esforço desde o início, com o ritmo objetivo já corrigido pelo WBGT antes de largar.

Porque as provas curtas são as perigosas

Uma prova de 11,3 km a 23 °C e 70% de humidade — objetivamente mais suave do que uma manhã em Cartagena — produz dez vezes mais golpes de calor do que uma maratona. São 18 anos de registos médicos e 274 casos.

A explicação dos próprios autores: a distância é curta o suficiente para ninguém aliviar. Não é a distância que te protege. É baixar o ritmo.

E um dado que vai contra a intuição: num triatlo sprint com calor, os amadores e os atletas de Taça do Mundo atingiram a mesma temperatura interna máxima. Ir mais devagar não te deixa mais fresco: deixa-te mais tempo exposto a menor velocidade de ar.

O arrefecimento

Antes de largar. Gelo picado ou granizado, 7,5 g por quilo de peso corporal, terminado entre 30 e 60 minutos antes da largada. O objetivo é baixar a temperatura interna 0,5 °C — com 0,3 °C já serve. Se usares colete de arrefecimento, deixa-o posto até ao último momento possível, e usa-o durante o aquecimento, não sentado.

Sê honesto com o que dá: nos dois melhores ensaios feitos em calor húmido com prova autorregulada, o arrefecimento prévio deixou o atleta mais fresco e mais confortável, mas não mais rápido. Vale a pena à mesma, porque o conforto na largada muda as decisões de ritmo do primeiro terço. Não prometas tempo.

Durante a prova. Isto rende mais do que o arrefecimento prévio, e é o que quase ninguém planeia. A regra para humidade alta:

Água fria sim, água morna quase não
  • Deitar água por cima funciona por duas vias: evaporação e contacto frio. A humidade anula a primeira mas não a segunda. É por isso que o gelo e a água bem fria continuam a servir, e a água à temperatura ambiente sobre a pele não faz quase nada.
  • Pescoço primeiro, depois cabeça, depois cara. Combinar zonas não acrescenta nada face a arrefecer só o pescoço.
  • Leva o teu próprio plano. Em Cozumel está documentado que o gelo se esgota para quem chega tarde aos abastecimentos. Um plano que depende do abastecimento não é um plano.

Um detalhe de ordem: o arrefecimento durante a prova rende cerca de cinco vezes mais num atleta já aclimatado. Primeiro aclimatas-te, depois somas gelo. Não ao contrário.

09 — Líquidos

Quanto bebes?

Curto de propósito: a hidratação e o sódio têm um guia próprio. Aqui vão apenas os dois pontos que são segurança, não desempenho.

Um. Nunca ganhes peso durante a prova. A hiponatremia — sódio no sangue abaixo de 135 mmol/L — aparece em até 13% dos finalistas de maratona e até 25% em Ironman conforme o ambiente. A causa, no grau de evidência mais alto do consenso internacional, é beber líquido hipotónico acima das perdas. O preditor mais forte no estudo de Boston foi ganhar peso durante a prova, com um risco 4,2 vezes maior; terminar em mais de 4 horas multiplicou-o por 7,4.

O perfil de risco é concreto: atleta de pouco peso, primeira vez na distância, ritmo lento, muito calor, e a instrução de «bebe tudo o que conseguires». É um perfil comum no grupo de idade.

Dois. As pastilhas de sal não tornam seguro beber a mais. O consenso di-lo explicitamente: o sódio suplementar não consegue prevenir a hiponatremia se a ingestão de líquido for excessiva. Uma bebida desportiva tem entre 10 e 38 mmol/L de sódio contra cerca de 140 no teu sangue: a diluição ganha. Podem ajudar ao balanço e ao sabor. Não te autorizam a beber mais.

E um detalhe que liga à secção 04: aclimatares-te baixa a sede. O teu plano de líquidos tem de estar escrito antes, não decidido por sensação durante a prova.

10 — Sinais de alarme

Quando para tudo

O sinal é a cabeça, não o termómetro

Confusão, agressividade, cambaleio, desorientação ou comportamento estranho durante ou logo depois de um esforço forte com calor: assume-se golpe de calor até prova em contrário.

Não esperes por ter a certeza. Não esperes que a pessoa pareça melhorar: as normas avisam expressamente que pode haver um intervalo lúcido e que depois a deterioração é rápida.

A pele molhada não exclui nada. A ideia de que o golpe de calor cursa com pele quente e seca vem do golpe de calor clássico, o das ondas de calor em pessoas idosas. Nos casos por esforço, o atleta vem a suar até minutos antes de cair.

O que se faz

  • Arrefecer primeiro, transportar depois. É o princípio explícito das normas internacionais, e a ordem importa.
  • Imersão em água fria, se estiver disponível. É o método mais rápido e está muito à frente dos outros.
  • Ligar para a emergência, sem parar de arrefecer.
  • Não forçar líquidos em alguém confuso ou que vomita.

Com arrefecimento rápido, a sobrevivência registada em séries de centenas de casos é de 100%. Com arrefecimento insuficiente, 4,4% de mortalidade. O tempo é o tratamento.

Antes de começar qualquer protocolo de calor

Fala com o teu médico antes de usar sauna ou banhos quentes se tens ou tiveste: angina instável, enfarte recente, estenose aórtica grave, insuficiência cardíaca descompensada, arritmias não controladas, hipertensão não controlada, ou qualquer doença cardiovascular. Também se estás grávida, se tens febre ou uma infeção ativa, ou se alguma vez tiveste um golpe de calor.

Vários grupos de medicamentos afetam a tua capacidade de regular a temperatura — entre eles diuréticos, betabloqueantes, anti-histamínicos, antidepressivos, antipsicóticos e estimulantes. Se tomas algum, pergunta a quem to receitou. Não mudes nada por tua conta.

Se tiveste um golpe de calor alguma vez, o teu risco de o repetir é mais alto durante os dois anos seguintes. O regresso à competição depois de um golpe de calor é uma decisão médica, não uma decisão de treino: exige repouso, análises normais e alta do médico. Depois de teres essa alta, a progressão construo-a eu.

11 — Caso especial

E se treinas em altitude?

Para quem vive e treina em Bogotá, Quito ou na Cidade do México e compete ao nível do mar na costa.

Descer da altitude dá-te menos do que julgas. O «+4 a 6%» que circula sai de estudos de atletas que vivem em cima e treinam em baixo. Tu vives em cima e treinas em cima, que é outro modelo: o seu efeito agrupado sobre o desempenho ao nível do mar é +0,9%, com um intervalo que cruza o zero. Os números realistas estão entre +1 e +3%. Além disso, a tua vantagem hematológica já está incorporada nas tuas marcas atuais: não é um bónus que aparece no dia da prova.

A altitude não te dá tolerância ao calor. Isto é o mais importante da secção e vai contra a intuição. O único estudo que testou diretamente essa direção — dez dias de hipóxia e depois uma prova com calor — não encontrou nada: nem melhor temperatura interna, nem melhor sudação, nem melhor desempenho. E há um motivo mecânico: a hipóxia contrai o volume plasmático e o calor expande-o. Chegas à costa com o perfil oposto ao de alguém aclimatado.

As duas coisas compensam-se? Não. O bónus de altitude é limitado e pequeno; a penalização de calor não tem teto e cresce com a duração.

DistânciaResultado líquido esperável
5 kmNeutro a ligeiramente positivo. A única distância onde «ao nível do mar devia ir mais rápido» se sustenta.
10 kmAproximadamente neutro. Decide-o a hora da largada mais do que o atleta.
Meia maratonaNegativo, salvo largada antes do amanhecer.
MaratonaClaramente negativo.
Triatlo de longa distânciaMuito negativo, e pela margem mais larga de todas.

Ninguém estudou até hoje a combinação exata de descer da altitude e ganhar calor e humidade ao mesmo tempo. Estas linhas são raciocínio sobre dois efeitos medidos em separado, não um resultado publicado.

O que fazer
  • Faz o trabalho de calor em casa, antes de viajar. Não vais chegar com tempo suficiente para te aclimatares lá.
  • Põe-no em dias suaves ou num bloco à parte. Todos os estudos que combinaram calor e hipóxia na mesma sessão deram resultado nulo ou pior.
  • Calcula o ritmo a partir do WBGT, não a partir de «estou ao nível do mar». Os que mais se enganam são os mais fortes, porque levam a expectativa mais alta.
12 — Referência

Condições típicas de cada prova

Condições observadas na manhã de prova, à hora que cada linha indica, em estações meteorológicas de aeroporto. Ordenadas de mais a menos exigente.

ProvaHora da leituraArPonto de orvalhoWBGT estimado
Cartagena — 70.3, novembro07:0026,1 °C25,0 °C31,2 °C
Barranquilla — 70.3, junho07:0026,1 °C25,0 °C31,2 °C
San Andrés — novembro07:0025,0 °C23,9 °C29,8 °C
Cozumel — Ironman, novembro07:0025,0 °C21,1 °C28,0 °C
Miami — maratona, janeiro06:0022,8 °C20,6 °C26,4 °C
Rio de Janeiro — maratona, junho07:0017,8 °C17,5 °C21,9 °C
Cidade do México — maratona, agosto06:0014,6 °C14,2 °C18,6 °C

Os WBGT são estimados, não medidos. Nenhuma destas provas publica WBGT. A fórmula usada não inclui radiação solar nem vento, por isso aproxima um valor à sombra: o WBGT real ao sol é mais alto do que o da tabela. Trata-os como piso, não como valor central, e confirma no dia da prova. A hora é a da leitura, não a da tua largada: várias destas provas saem em ondas — o Rio entre as 5:25 e as 5:35, a Cidade do México em cinco grupos desde as 5:45 — por isso se largares antes da hora da linha, as tuas condições são mais frescas do que as da tabela.

Três leituras práticas.

Cartagena e Barranquilla são a pior combinação da lista, e não por pouco. Às sete da manhã já estão em zona de bandeira vermelha, antes da largada. Barranquilla é ainda por cima interior e aquece mais depressa: ao meio-dia chega a 32,2 °C de ar. Num 70.3, a parte decisiva é a corrida, não a bicicleta.

Cozumel é a mais variável de todas. O ponto de orvalho na largada variou entre 17,9 e 23,9 °C em quatro anos, conforme entrasse ou não uma frente fria. Um plano de prova para Cozumel não pode assumir as condições do ano passado.

A Cidade do México não é uma prova de calor, mas também não é uma prova seca. A manhã de 31 de agosto de 2025 correu-se com 14,6 °C e 97% de humidade. Isso não é um problema de calor — é um problema de que a essa humidade a sudação arrefece pouco, e a 2.250 metros perdes ainda água pela respiração que não estás a contar. O limitante é a altitude, não o termómetro, e quase tudo o que está neste guia é a ferramenta errada para essa prova.